O Dj Winston Foster, mais conhecido como Yellowman, é o artista mais polêmico do reggae. O maior responsável pela popularização do dancehall, é admirado e odiado pelos que acompanham a cena jamaicana. Mas ninguém pode deixar de reconhecer o talento desta singular figura para o puro e simples entretenimento.
Yellowman nos anos 1980, auge de sua carreira
O festival jamaicano Reggae Sunsplash havia sido realizado em 1981 como um tributo a Bob Marley, que havia falecido meses antes de sua realização. O Festival de 82 foi então cercado de grande expectativa. Todos se perguntavam quais seriam as estrelas que iriam levantar o público e levar o reggae adiante. Após a maratona de shows, acontecida no Jarrett Park da cidade de Montego Bay, as manchetes dos jornais anunciavam o que ninguém esperava: 'YELLOWMAN ROUBA O SHOW'. Era a consagração do controvertido Dj, três anos depois de ter começado sua carreira vencendo o 3º Concurso de Calouros do Tastee's Bar.
Yellowman em 1996: o albino enfrentou obstáculos quase intransponíveis ao longo da vida, mas deu a volta por cima e fez escola (foto: José Renato).
Winston Foster nasceu na capital jamaicana,Kingston, em 15 de janeiro de 1957, de pais desconhecidos. Eles o abandonaram logo que nasceu, provavelmente chocados pela sua condição de albino (como o Sivuca), considerados por tradição como impuros na Jamaica. Sua infância e adolescência foram marcadas pelo preconceito e era na música que ele se amparava. Os ídolos daquela época eram Bob Marley, Marvin Gaye, Jackson Five, e os grandes bluesmen dos anos 50, com Fats Domino. Não tinha uma voz privilegiada como a deles, mas isso não importava.
No começo da década de 70, Count Matchuki, King Stítt e U Roy começaram a fazer comentários em cima das bases instrumentais dos reggaes de sucesso, criando o estilo Dj que iria influenciar toda a música negra, ao gerar o toasting jamaicano e inspirar o aparecimento do rap. O jovem Winston sentiu que era por aí o caminho e começou a batalhar pelo seu espaço.

Dj's geralmente começam nas ruas apresentando os sound-systems (equipes de som itinerantes) e o primeiro a lhe dar essa oportunidade chamava-se Black South International. O futuro 'Mr. Sexy' tinha 18 anos. O início foi duro e muitas vezes ele enfrentou a antipatia das pessoas, que gritavam 'Sai fora, dundus!' (dundus é o nome pejorativo dado aos albinos por lá). Logo ele concluiu que a única forma de enfrentar esse tratamento negativo era não levar nada disso muito à sério, principalmente a si mesmo. Assim criou o personagem que o tornaria famoso: o Homem Amarelo, o Rei Yellowman.
Depois de vencer o concurso do Tastee's Bar, Yellowman se tomou o DJ principal do sound-system Aces Discoteque, da cidade de Saint Thomas. Suas hilariantes performances começavam com uma entrada teatral, em que ele trajava um terno amarelo, um chapéu da mesma cor e fazia poses "sexys". Essa postura quebrava qualquer clima hostil e foi logo conquistando o público. Os primeiros discos que fez eram registros dessas apresentações, em que ele não usava uma banda. Seus improvisos, feitos na língua das ruas, nunca se repetiam, mas isso não funcionava bem em uma gravação. Assim começou a sua parceria com a Sagittarius Band, o grupo que o acompanharia na maior parte de seus discos e shows pelo mundo.
A projeção alcançada no Sunsplash 82 levou o seu nome para além das fronteiras jamaicanas e em 84 ele se tornou o primeiro artista da sua geração a assinar com uma grande gravadora. Nesse ano viajou para os Estados Unidos para gravar o disco que o tomou conhecido no Brasil: King Yellowman (ver o Pequeno Guia das Bolachas Amarelas). Foi o apogeu de sua popularidade e influência sobre a cena reggae jamaicana, que muitos acusaram de ter sido perniciosa. As letras divertidas e maliciosas e a sua falta de compromisso com a filosofia rastafari foram encaradas com desconfiança pelos reggaemen, mas abraçadas com entusiasmo pelo público.
A Jamaica vivia há muito tempo num clima pesado, os pistoleiros ligados aos dois partidos políticos da ilha estavam à solta e o novo governo de direita havia proibido o reggae nas rádios. As pessoas queriam diversão e era exatamente isso que Yellowman oferecia.
Certavez Bob Marley lamentou que, numa terra tão rica musicalmentecomo a Jamaica, estilos como o ska e o mento não pudessem convivercom o reggae porque o mercado da ilha era muito pequeno e os artistastinham que tocar o que fazia sucesso. Por isso Yellowman foi acusadoser o carrasco do roots reggae ao ajudar a fazer do dancehallo estilo mais popular. Todos os artistas que surgiram depois oapontaram como um desbravador e ele mesmo se auto-proclamou maisde uma vez o 'Rei do Dancehall'. Mas suas letras de duplo sentidoeram fichinha perto do que Ninja Man e outros fariam depois, comsuas louvações ao uso das armas automáticas. Ele também não aderiutotalmente à nova tecnologia musical, preferindo fazer seus discosquase sempre acompanhado da Sagittarius ou da Roots Radics Band,ao contrário da maioria, que utilizava apenas sintetizadores ebaterias eletrônicas. Além disso, o que mais o diferencia dosDj's mais jovens é o aguçado senso de humor, mas a fama de apelador-moracabou pegando de vez. Isso gerou uma situação curiosa: enquanto"bad boys" como Shabba Ranks eram insistentemente promovidos,o Homem Amarelo amargava um longo boicote da imprensa especializada,principalmente nos Estados Unidos. Sua carreira até foi dada porencerrada quando um câncer fez com que fosse retirado parte deseu maxilar, mas sua força de vontade o conduziu logo de voltaà cena musical.
Yellowman e Renê Simões, o técnico brasileiro que levou a seleção da Jamaica a sua primeira classificação para uma Copa do Mundo (foto: revista Reggae Times) Hoje os velhos e novos talentos do ska e do roots encontram o seu público em todo o mundo e estão voltando a gravar discos. Isso ocorre graças à expansão mundial do reggae, a partir da conquista do mercado americano, o maior de todos. Uma das conseqüências dessa nova situação é o relaxamento da pressão sobre o albino. Seu último cd, 'Prayer', foi elogiado por retomar os valores culturais que estão voltando a ter importância na ilha. Assim, depois de tantos anos, ninguém pode negar que Yellowman se tomou um dos grandes embaixadores do reggae. Certamente o DJ mais viajado da Jamaica, já levou os seus shows super-profissionais aos cinco cantos do planeta. Esteve no Brasil (1) duas vezes, em 91 e no ano passado. A primeira turnê foi a melhor, ele estava entusiasmado de tocar por aqui e a banda era a Sagittarius, com quem tem um entrosamento imbatível. Durante a apresentação o conjunto transitava com desenvoltura pelo estilo Dj dos anos 70, próximo ao roots, pelo dancehall e pelos clássicos do rhythm & blues. A energia do amarelo front-man era impressionante e depois de duas horas de show todos na platéia queriam mais. O show de 94 foi menos apoteótico, a banda não era a mesma, mas ele segurou com público com muita competência. YeIIowman certamente continuará ainda por muito tempo sua missão de torna a nossa vida um pouco mais alegre. Alheio à toda a polêmica em torno de suas atitudes, ele continua como um dos artistas mais produtivos da cena. 
Fontes deste artigo: notas do álbum "Live at the Reggae Sunsplash 82", depoimentos de Geraldo Carvalho e de Yellowman.
Notas
(1) Yellowman voltou ao Brasil outras vezes depois da publicação deste artigo. Seus únicos discos lançados por aqui foram King Yellowman (EMI), Prayer (Top Tape), Yellowman live in Paris (BMG) e Freedom of Speech (Top Tape) Clique aqui para voltar ao trecho do texto de onde você veio.
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